segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Individuação




https://youtu.be/iY_bGgAz4to

O processo de individuação é uma problemática que surge quase sempre nos estágios finais de um processo analítico. Jung compreende por “analítico” todo processo que se confronta com a existência do inconsciente. Ele utiliza individuação no sentido do processo que gera um individuum psicológico. O processo de individuação só tem sentido diante da hipótese, calcada em observações empíricas especialmente no campo da psiquiatria, de que o inconsciente possui um caráter objetivo e autônomo. Essa autonomia é uma característica geral e normal que se encontra exacerbada no caso patológico, especialmente no campo das psicoses. Em certo sentido, para Jung, o inconsciente pode ser entendido como “realidade in potentia”, onde se podem descobrir qualidades desconhecidas de caráter e possibilidades futuras de desenvolvimento. O inconsciente é como o Janus bifronte, por um lado olha para o passado, por outro antecipa potencialmente o futuro, como Jung assevera em seu Psicologia e Alquimia, todo conteúdo genuinamente anímico é ambivalente. 


https://youtu.be/iY_bGgAz4to

A individuação é o desenvolvimento do indivíduo psicológico como ser distinto da psicologia coletiva, que se caracteriza pela identidade e projeção, é um processo de diferenciação, que tem por meta o desenvolvimento da personalidade individual. Essa meta é completamente diferente do “individualismo”, que não passa de uma “acrobacia da vontade”. O processo de individuação não leva a um isolamento, mas a um relacionamento coletivo mais intenso e abrangente. Paradoxalmente, a individuação pressupõe um mínimo de adaptação à norma coletiva ao mesmo tempo em que está sempre em maior ou menor oposição a ela, pois é uma separação e diferenciação do geral.  É preciso que fique claro que a individuação não vai contra a norma coletiva, mas se constitui em um outro modo, se fosse uma simples oposição seria não um caminho individual, mas uma norma antagônica, e o caminho individual nunca é norma. Para Jung, a individuação nunca é algo simplesmente procurado pelo sujeito, mas já se encontra fundamentada a priori na sua disposição natural.

O inconsciente se manifesta por meio dos sonhos, a “via régia de acesso ao inconsciente”, como Freud o chamou, e se observados por longo período de tempo em grandes séries, é possível perceber uma ampla teia de fatores psicológicos que obedecem a uma determinada configuração ou esquema. Este esquema ou configuração é justamente o que Jung denominou de processo de individuação. Há entre o inconsciente e a consciência uma tendência reguladora que gera um processo de crescimento psíquico, e que pode ser percebida no exame das imagens oníricas. O processo de individuação, que é esse crescimento ou separação da psicologia coletiva e consecução do indivíduo, não pode ser efetuado pela vontade consciente sozinha, mas se trata de um fenômeno involuntário, autônomo, objetivo e natural. Por esse motivo não se trata de individualismo, dos objetivos e planos egoístas da consciência, ao contrário, muitas vezes, no processo de individuação é forçoso abrir mão desses objetivos e planos.  

A individuação é um impulso interior de crescimento ao qual o complexo do eu deve dar ouvidos e prestar grande atenção, e entregar-se a ele sem qualquer outro propósito ou objetivo. Pela observação dos sonhos, ao se perceber essa complicada configuração de imagens psíquicas, percebe-se com clareza uma tendência à ordem e uma orientação finalística, em virtude disso, bem como de certos símbolos específicos de caráter mitológico que aparecem no decorrer do processo, Jung teorizou a existência de um centro regulador do psiquismo que ele chamou de Selbst em alemão. Ele pode ser entendido como um fator de orientação íntima, que por meio dos sonhos provoca um constante desenvolvimento e amadurecimento da personalidade. Até onde vai esse desenvolvimento vai depender do quanto à personalidade consciente vai estar disposta a ouvir as mensagem do Selbst e abrir mão de seus próprios planos e desejos em prol da meta do desenvolvimento da personalidade. O verdadeiro processo de individuação é a harmonização do consciente com o centro interior, o Selbst. Como se pode ver, em geral, o início desse processo causa uma lesão ao eu e isso acarreta sofrimento, pois ele se sente tolhido nas suas vontades e desejos. Nesse sentido, como é sobejamente mostrado nos mitologemas que envolvem jornadas heroicas, a consecução da personalidade é eivada de dores e perigos e nem todos estão à altura da tarefa de tornarem-se quem realmente são.

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