segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A Perspectiva Jungiana da interpretação de sonhos

Esse texto foi escrito por mim há pouco mais de seis meses como um exercício de interpretação e utilização do método Junguiano. A pessoa que forneceu o sonho não é identificada de nenhuma maneira no escrito que se segue. Compartilho o texto como uma forma de partilhar minha visão acerca da Psicologia Moderna.


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A perspectiva de Jung, no que concerne a interpretação dos sonhos, difere grandemente da de Freud, apesar de ambos considerarem o sonho a “via regia” de acesso ao inconsciente e uma ferramenta importante na prática clínica.

Jung jamais criou uma teoria da interpretação de sonhos, esquemática e intelectualizada, para ele cada sonho tinha sempre que ser visto como um evento novo e espantoso e visto com o menor número de preconceitos possível, mais de uma vez em seus escritos ele repete que se deve aprender o máximo possível de teoria e de amplificações mitológicas e que no momento de se defrontar com um paciente em análise ou ao lidar com seus sonhos, deve-se o máximo possível esquecer a teoria. Além disso, diferente de Freud para quem o sonho era sempre “o guardião do sonho” e sempre “uma realização de um desejo inconsciente”, o sonho não era, nem poderia ser tão limitado. Para Jung a estranheza das imagens oníricas não justificava a interpretação Freudiana de que haveria uma censura capaz de transformar os pensamentos oníricos latentes em uma fachada que era o conteúdo manifesto, Jung divergia completamente dessa tese. Freqüentemente ele citava um velho ditado árabe “o sonho é a sua própria interpretação”. Assim como ao nos depararmos com um texto em grego, não precisamos teorizar que sua estranheza em relação ao português se deve a algum mecanismo de censura, esse texto apenas está em uma outra língua. O idioma nativo do sonho é o idioma do inconsciente, com suas imagens espontâneas da imaginação de caráter simbólico.

Ainda assim, Jung possuía uma teoria basilar em sua arte de interpretar sonhos. Todos os sonhos são fenômenos naturais, espontâneos e que provêm do inconsciente e possuem uma função compensatória ou complementar a consciência. Os sonhos estabelecem um diálogo entre nossa consciência e o fundamento profundo de nosso ser, a estrutura inconsciente que é a origem, a matriz a partir do qual o eu e a consciência do eu se originaram. Para Jung o inconsciente é anterior, simultâneo e posterior a consciência.  O complexo do eu, possui uma posição especial na nossa constituição anímica, na hierarquia dos complexos ele possui o afeto do corpo (para escrever esse texto eu penso e meus dedos respondem a minha volição), além disso, ele possui uma energia psíquica, ou um quantum dessa energia a sua disposição: à vontade, resultado de um longo processo histórico de desenvolvimento da consciência e incutido em nós e exercitado através da educação. Esse eu, apesar de sua posição especial na hierarquia dos complexos, compartilha da qualidade mais geral de nossa psique que é a sua qualidade de dissociação, o complexo do eu é altamente compósito e variado, num momento lembramos com clareza de um nome, mas no instante seguinte nos é impossível recordar esse mesmo nome de que lembrávamos há pouco.

A consciência se caracteriza por ser unilateral, ela funciona pelo circuito energético de direção/seleção/exclusão. Sua unilateralidade possui como fim a especialização com finalidade adaptativa. Todavia, a estreiteza da consciência é compensada pela vastidão e não especialização do inconsciente. Os sonhos muitas vezes corrigem atitude da consciência ou as espelha de maneira impessoal para permitir uma possibilidade de reflexão e auto-conhecimento. Nesse sentido, mesmo fora de um processo de análise, os sonhos nos permitem um diálogo objetivo com esse espírito que tece nossos sonhos e fantasias e que nos mostra a nós mesmos como somos, sem rodeios ou ilusões, e algumas vezes com rara ironia e humor.

Na perspectiva de Jung, podemos interpretar os sonhos como se eles fossem um drama pessoal em que somos todos os elementos do sonho, como se numa peça fôssemos todos os atores, o contra regras e o diretor. É isso que é chamado de interpretação a nível do sujeito. Dessa forma interessam as amplificações fornecidas pelo sonhador, que vão esclarecendo aos poucos os simbolismos pessoais das imagens oníricas e que o analista devolve a ele no diálogo que caracteriza a terapia. Todavia, muito freqüentemente os sonhos se referem a pessoas outras que não nós mesmos, de maneira concreta e não como uma alegoria para algo em nossa alma, outras vezes apresentam caráter prospectiva ou, mais raro, caráter premonitório. Também não raro, os sonhos apresentam uma mensagem cujo valor não se restringe a esfera pessoal, mas que possuem validade geral e falam a condição humana, não a um indivíduo em particular.

Isso se explica pela existência do que Jung chamou de psique objetiva, o “inconsciente profundo” ou inconsciente coletivo, a base estrutural sobre o qual surge nossa alma como fenômeno observável. Daí ser possível um segundo tipo de interpretação dos motivos oníricos, chamado de interpretação a nível do objeto. Essas duas modalidades de interpretação não são mutuamente excludentes, ao contrário, complementam-se.

O sonho a ser interpretado


Os sonhos apresentados aqui são de uma mulher jovem, bonita e invulgarmente inteligente. Além disso, singularmente energética e ativa. Os sonhos apresentados por ela possuem a característica de serem recorrentes. Em geral, sonhos se repetem quando sua mensagem compensatória ou complementar não foi compreendida pela personalidade consciente. O estudo ou a interpretação dos sonhos não é apenas um passatempo intelectual ou uma curiosidade, mas possui uma orientação extremamente prática. O trabalho com o simbolismo onírico serve para que a consciência possa assimilar moralmente os conteúdos inconscientes ou possa tornar conscientes certos processos que de outra forma seriam inconscientes. É importante salientar que mesmo o termo inconsciente possui uma utilidade prática, ele significa aquilo que eu não sei. Por exemplo, não faço a menor idéia do que existe dentro do meu teclado de computador ou como ele funciona, logo isso me é inconsciente. Boa parte de nossas ações, impulsos, ou desejos, se afiguram a nós da mesma maneira que os sonhos, a consciência não os produz ou controla, apenas sofre seus efeitos. A finalidade última é a transformação da personalidade, metanóia que só pode acontecer através do auto-conhecimento, e que como se dá em âmbito moral, não pode ser levada a cabo em termos meramente ou exclusivamente intelectuais, mas também em termos da função sentimento. Não há mudança ou transformação genuína sem se passar pelo fogo da emoção e do sofrimento.

O primeiro sonho:

A sonhadora está na casa em que viveu na infância, ela está no quintal, na parte de trás da casa, numa pequena construção que se situava nos fundos, uma casinha com uma porta sala, janela e banheiro e ali ela se vê acossada por duas enormes najas com seus capelos abertos que a perseguem. Tomada de grande pavor ela se refugia na casinha e fecha a porta. Enquanto tentam forçar passagem pela porta as duas serpentes latem de maneira ameaçadora e tão alto que toda a construção treme.

A esse sonho a sonhadora acrescentou a seguinte amplificação. A tal casinha que ficava nos fundos da casa de seus pais ficava próxima ao muro da casa vizinha que pertencia a sua tia, e que lhe inspirava grande temor, e da qual ela não se aproximava sozinha por temer que algo de ruim viesse a lhe acontecer. Seu primo que ali vivia morreu devido a um afogamento, o que aumentou seu temor de se aproximar do local, em especial uma espécie de sótão que havia ali.

O par de najas surge no sonho com papel de destaque, a elas está associado um grande temor, a que a sonhadora acrescentou que em sua vida vígil também possui um medo desses animais peçonhentos, ao mesmo tempo, costuma se definir como “uma cobra” (devido ao seu mau temperamento). Nos mitos as serpentes desempenham um papel de grande destaque e seu simbolismo é vasto, segundo Von Fraz o material de amplificação relativo às cobras pode ser dividido em sete aspectos:

1- um espírito telúrico (por exemplo, a serpente de Midgard, inimiga dos valares, os deuses superiores da mitologia germânica e que era filha de Loki – deus das trapaças e do fogo – e que circundava toda a terra e devorava sem parar as raízes de Ygdrazil a árvore do mundo).

2 – como a alma de um herói morto, um demônio sepulcral (a cobra saindo dos corpos dos motos como vermes, imagens de cobras nos túmulos com um ovo, como símbolo de renascimento).

3 – como genius loci (o genius loci de Atenas, Cecrops, vivendo na acrópole; também o rei Erechtheus, que quando bebe foi encontrado numa caixa, enrolado em cobras, o rei meio serpente da ilha se Salamia, Kychreus, que de acordo com as lendas apareceu para encorajar os gregos na batalha de Salamia).

4 – como um daimom positivo e curador (a cobra de Esculápio, o cajado de Aron).

5 – um animal mântico, inspirando profetas (em contos de fadas comer serpentes permite as pessoas saber o futuro ou entender a fala dos animais e pássaros; Siegifried ao provar do sangue do Dragão Fafnir adquire o dom de entender os pássaros. O vidente Melampus possuía uma cobra em seu escudo. No oráculo de Delfos a sacerdotisa era a “pitonisa” – píton – pois acreditava-se que o local era habitado por uma serpente).

6 – como a mãe em seu aspecto negativo (a cobra de Hecate, o demônio feminino da terra; também o Phyton, inimigo de Apolo, ou Echidna, meio mulher e meio serpente, ou Gaea, inimiga de Hércules).

7 – como um símbolo do espírito (Philo de Alexandria diz que a cobra é “o animal mais espiritual imaginável, pois é rápido como a pneuma, não possui pés nem mãos, vive muito e muda de pele i. e. se renova. No simbolismo alquímico assim como nos mistérios de Osíris e Sabazios era um símbolo de auto-renovação. Na Yoga Kundalini ela é a “enrolada” a serpente que repousa na base da coluna e quando ativada se ergue pelo canal da espinha ativando todos os chakras).

A serpente é um símbolo extremamente paradoxal, pois como espírito telúrico que é inimiga dos deuses e um demônio da terra, ela representa o instinto. Como o “animal mais espiritual imaginável” representa o espírito. Jung coloca a vida anímica como uma tensão entre dois pólos extremos, o par funcional instinto e arquétipo, que são os elementos do espírito. Ambos, arquétipo e instinto estão unidos no fluxo vital, inseparáveis. Este é o paradoxo representado pela serpente o instinto e o sentido espiritual do instinto.

No sonho em questão temos duas serpentes que perseguem a sonhadora num ambiente que remete a sua infância, a casa dos pais, lugar onde se está sob a influência psíquica das figuras parentais. Na infância todos nós vivemos em larga medida em um estado de identidade arcaica com nossos pais. O fenômeno da identidade arcaica, significa uma igualdade psicológica e é sempre um fenômeno inconsciente, e que é o fundamento da participation mystique, resíduo da primitiva indiferenciação psíquica entre sujeito e objeto. Logo do estado inconsciente primordial. Esse estado também caracteriza a primeira infância e o inconsciente do adulto civilizado. Este, na medida em que se não tiver tornado um conteúdo da consciência permanece preso a um estado de identidade com o objeto.

Isso significa que temos uma quase ilimitada mistura de nossa subjetividade na imagem que formamos do mundo. O termo arcaico é utilizado por Jung, pois essa é a condição original do homem, ou seja, um estado em que vemos e sentimos todos os processos psíquicos como algo exterior a nós mesmos. Bons e maus pensamentos são espíritos, afetos são deuses, estar apaixonado significa estar enfeitiçado e por aí vai. Projeções são socialmente perigosas, e terrivelmente perturbadoras, mas possuem um sentido e uma função. Existem certos processos inconscientes dos quais só podemos nos tornar conscientes através das projeções. Boa parte do trabalho analítico consiste em auto-conhecimento, pois não há transformação da personalidade sem auto-conhecimento, e isso significa, em termos psicológicos, a assimilação moral de certos conteúdos do inconsciente.

O fenômeno da projeção está associado à qualidade da nossa psique de se dissociar, pois aparentemente nossa psique é formada por vários complexos separados que se unem para formar uma individualidade. Além disso, ao se referir ao inconsciente, Jung reiteradas vezes afirma que “todo inconsciente é projetado”. Além das informações sensoriais que nos são transmitidas pelos sentidos, existem sempre influencias psicossomáticas internas que influenciam a maneira como experimentamos o mundo. Todavia, o fenômeno da projeção possui um escopo bem mais restrito, ele está relacionado ao fenômeno mais geral daquilo que Jung denominou de identidade arcaica. Só é considerada uma projeção, em termos junguianos, quando existe um sério distúrbio de adaptação. A interpretação dos sonhos é a assimilação de seus conteúdos pela consciência, com sua conseqüente ampliação, é uma das maneiras de “retirada de projeções”, da atuação compensatória ou complementar do inconsciente agir sobre o eu.

No sonho temos duas serpentes, mais especificamente duas najas de aspecto terrível. Há um paralelo interessante na mitologia grega no mito de Héracles (Hércules). Filho de Zeus e da mortal Alcmena, a mais bela mulher de seu tempo, Hércules foi fruto de uma artimanha de Zeus que assumiu a forma de Anfitrião (esposo de Alcmena) que havia saído para uma batalha. Depois que o deus deixou o leito, Anfitrião retornou e tomou uma segunda vez sua esposa naquela noite. Dessa noite nasceram duas crianças gêmeas, Hércules filho do deus e Íficlis, filho do mortal Anfitrião. Furiosa com a indiscrição de seu marido divino, Hera enviou duas serpentes para matar o menino recém nascido, mas o jovem Hércules as estrangulou com facilidade, enquanto Íficlis fugiu chorando. Hércules seria doravante perseguido por Hera que lançou sobre ele todo o tipo de armadilha, obstáculo ou desafio para matá-lo.

Hera, como símbolo do complexo materno negativo, na história de Hércules, sempre o perseguiu e atormentou, até sua morte. O complexo materno em si não é nada de anormal – Dante foi guiado até o paraíso por Beatrice, como uma figura materna. Ele significa uma estrutura interna de nossa alma que pode ser vivida de maneira positiva ou negativa. Os nossos instintos, não apenas a sexualidade, são os fundamentos vitais, as leis da vida de modo geral. A criança vive em um estado de semi-inconsciência, um estado de profunda identidade arcaica com seus pais, nesse sentido a criança parece ser incapaz de diferenciar seus próprios instintos da vontade de seus pais, pois sua consciência ainda é insipiente. A distinção, a capacidade de selecionar e excluir, de diferenciar é qualidade funcional da consciência por oposição ao inconsciente. A conseqüente incapacidade de discernimento faz com que os animais, que como discutimos anteriormente representam os instintos, sejam de maneira simultânea atributo dos pais e que os pais apareçam em formas de animais.

O inconsciente responde de maneiras compensatórias as disposições e atitudes da consciência. Por esse motivo, a maneira como essas figuras se apresentam dependem da atitude consciente. Uma atitude negativa para com o inconsciente gestará animais assustadores, uma atitude positiva engendrará o contrário, animais prestativos. Além desse fator, temos a atitude com relação aos pais. Uma atitude excessivamente carinhosa com os pais, dos quais estes participam de forma decisiva, é geralmente compensada com o surgimento de animais assustadores que correspondem aos pais.

Essas duas cobras possuem uma característica especial, elas latem como cães. Aqui nos deparamos com o igualmente rico simbolismo do cão e que reforça a ambigüidade e o aspecto paradoxal da imagem da serpente no sonho. Segundo Von Franz.

Na antiguidade o cão estava associado ao lado escuro da lua, ligado a deusa Selene (a lua). Assim como a Artemis, a deusa do nascimento, que levou Acteon a uma morte sangrenta e trágica, despedaçado por seus cães de caça devido ao mortal tê-la visto se banhar. Durante a noite, segunda as lendas, a deusa Hécate podia ser ouvida uivando como uma matilha de cães. Cerberus, o cão de três cabeças que guardava a entrada para o tártaro, era o filho de Echidna, a filha de Gaia (a terra) e Typhon, metade mulher metade serpente. Seus outros filhos eram a quimera, Scylla, a górgona (Medusa e suas irmãs Esteno e Euríali), o cão monstruoso do gigante Gerião, Ortro, que foi morto por Hércules. Foi com esse Cão Ortro que Echdina, em incestuoso coito, deu origem a Esfinge.

O cão aparece nos mistérios de Mitras, como um dos animais que salta sobre o touro moribundo, a morte de Mitras em sua forma de touro é um momento de grande fertilidade. Na época de maior calor do verão, quando as pragas ameaçavam se espalhar, cães eram sacrificados a Hécate. Isis, a deusa egípcia, cavalga sobre um cão. Kyon, o cão estava associado à gestação. O cão, no simbolismo mítico, pertence à deusa mãe.

O cão estava igualmente associado à Asclépius (deus da medicina, em seus templos praticava-se um ritual de levar o enfermo a sonhar para se recobrar de seus males) na antiguidade. No Egito, Anúbis o deus com cabeça de chacal auxiliou Ísis a recolher as partes do corpo esquartejado de Osíris, que foram encontradas, menos o seu falo que foi devorado por um peixe. No ritual funerário egípcio os cães participavam como sacerdotes de Anúbis (o guia dos mortos – psicopompo). Na Pérsia os cadáveres eram jogados aos cães como alimento. Igualmente, um cão era levado à cabeceira da cama de um moribundo para que ele o alimentasse, assim os cães poupariam seu corpo, assim como Hércules deu biscoitos de mel a Cérberus para atravessar para o mundo dos mortos. É freqüente existirem pequenas estátuas de cães em túmulos ou em lápides. Na mitologia Azteca um pequeno cão amarelo guiava os mortos em sua última jornada.

Para a análise desse sonho em particular é interessante notar que em algumas descrições de Cérberus em lugar de sua cauda ele possui uma serpente peçonhenta. O motivo do cão também está presente na filosofia gnóstica. O logos no Cristianismo também é representado por um cão, gentil para os que o aceitam e feroz contra seus inimigos. No simbolismo alquímico os cães indicam o início da transformação: são um símbolo da prima-materia. Mas, psicologicamente, o cão representa o contato humano ideal com seus instintos.

Temos aqui indicações importantes para analisar a imagem do sonho. A imagem de um sonho normalmente é uma representação simbólica do estado psicológico do sonhador naquele momento. As serpentes latem como cães, há um indicativo de que poderia haver a possibilidade de transformação através do confronto com o aspecto inconsciente e não desenvolvido do instinto na forma da serpente, indicando uma tendência a maior espiritualização, mas a consciência se recusa a participar desse processo, pois foge apavorada e se tranca na casinha.

A casa normalmente surge com símbolo do próprio corpo, e também como símbolo da personalidade e de suas possibilidades. Jung freqüentemente sonhava que descobria novos compartimentos em sua casa, todos mais antigos e remontando a eras passadas, muitas vezes áreas subterrâneas, indicando suas possibilidades de ampliação de sua personalidade através da exploração do inconsciente. A sonhadora está presa na casa de seus pais, ou seja, presa a um estado infantil. A libido não consegue progredir e se direcionar a outros objetivos, presa a identidade arcaica com os pais e a infância. Ela está trancada numa casa extremamente pequena, não tem acesso a casa maior ou ao quintal, lugar de lembranças prazerosas de usa infância. Sua personalidade torna-se restrita aquele espaço confinado, sua única possibilidade seria sair e enfrentar as cobras, mas isso não ocorre, o medo a paralisa.

O quadro desalentador de diminuição do escopo da personalidade empírica simboliza o que Jung chamou de perda de alma, quando boa parte da libido consciente se perde para a esfera dos complexos inconscientes, limitando a liberdade do eu em relação a esses complexos e tolhendo seu campo de ação. O sonho prefigura o estado de depressão pelo qual a sonhadora realmente passou, mas do qual felizmente se recuperou. A casa diminuta também está associada à morte e ao medo da morte. A possibilidade de transformação da personalidade muitas vezes é sentida pela personalidade consciente como algo terrível e simbolizada como morte (para posterior renascimento como aparece no simbolismo da serpente), ambos os animais são guia espirituais, mas encontram-se separados da sonhadora, que incapaz de assimilar moralmente sua mensagem, se tranca num espaço confinado e claustrofóbico.

A sonhadora relata também ter freqüentes sonhos em que está em meio à água suja, ou turva e que são imagens que trazem grande angústia. Tendo em mente sua associação com o afogamento, temos um forte indício da relação conflituosa com o inconsciente, o que leva a separação, ou cisão que acarreta a depressão, pois a atitude da consciência vai se tornando cada vez mais unilateral sem a possibilidade de renovação de vida trazida pelo diálogo com as forças obscuras da alma. Campbell usa a metáfora de que o místico “nada nas mesmas águas em que o neurótico se afoga”, aqui a atitude consciente para com o inconsciente é de fundamental importância. Lembrando que o simbolismo da água, como fonte e matriz de toda a vida, tanto na mitologia persa, quanto grega e Hindu, reforçam sua ligação com a esfera inconsciente. Lembrando as palavras de Heráclito: ψυχηισιν θάνατος ΰδωρ γενέσθαι, ΰδατι δε θάνατος γην γενέσθαι, εκ γης υδωρ γίνεται εξ ΰδατος δε ψυχή. “É mortal para a alma se tornar água, e é mortal para a água se tornar terra, água vem à existência saindo da terra e almas saídas da água”. Dito em termos psicológicos: o eu se origina das matrizes inconscientes por um processo de diferenciação, mas se identificar com elas, com a matriz inconsciente significa tornar-se indiferenciado, idêntico ao inconsciente, ao caos primevo, usando a dramática, porém precisa expressão do sábio de Éfeso: significa morte!

A assimilação moral dos conteúdos do inconsciente não significa identificar-se com eles, ou simplesmente compreendê-los. O temor dessa identificação, dessa morte anímica, paralisa e aprisiona a sonhadora. A sonhadora é dotada de grande capacidade intelectual e sólida formação acadêmica e humanística, sendo bem provável que ao se deparar com as amplificações objetivas do simbolismo de seu sonho fosse capaz de realizar o trabalho filológico e ao menos em parte, ter podido assimilar um pouco da mensagem do sonho evitando ou amenizando ao menos o sofrimento neurótico por que passou. Mesmo assim, para a compreensão ampla dessas imagens, a função sentimento é indispensável e nesse aspecto o início da transformação psicologia indicado pelo sonho seria uma irrupção da função inferior, o sentimento, o que seria sentido como um chamamento, possessão ou profunda desorientação, mas que levaria ao estabelecimento de uma personalidade mais ampla e bem ajustada, com o preço do sacrifício da função superior (pensamento) no caso do engajamento consciente no processo de individuação em seu estado mais avançado. O que em seus estados iniciais pode ser sentido como grande angústia.

O problema da relação da sonhadora com seus guias espirituais, seus dois animais xamânicos, pode ser compreendido também em termo míticos: a recusa ao chamado a aventura, o que leva a se viver na “terra devastada”. Aqui faz-se necessário uma profunda coragem para se abrir a influência do inconsciente e uma mudança de atitude em relação a ele para que a personalidade se abra a mudança. Toda vida humana se depara com obstáculos e sofrimento de muitos tipos, toda vida humana sem exceção. Campbell reforça que uma das funções do mito é a chamada função mística, a de nos ajudar a apresentar o sentido do assombro e mistério diante do universo. O mundo é um lugar terrível, uma grande bagunça onde vida se alimenta de vida, mas mesmo assim, esse aspecto do mito nos ensina que ele é a “lótus dourada da perfeição”. O mundo é o que é e sempre foi: uma grande bagunça, aceitar isso, em vários sistemas míticos, é o começo da verdadeira sabedoria. Conseguir enxergar Bhrama, a energia da consciência viva, cósmica e universal do qual somos meras manifestações em todos os fenômenos, mesmo naqueles que nos parecem desagradáveis ou brutais. O que significa que o mundo permanece o mesmo, mas nossa atitude em relação a ele muda. Importa menos os objetos, mas a forma de apetecer. O terror paralisante e o medo dão lugar ao sentimento de que tudo a nossa volta aponta para o transcendente, para Bhrama. Em nossa alma estão as sementes de nosso desenvolvimento e nosso destino, o plano que nosso espírito tem para nós e que se manifesta em nossas vidas, sem isso, sem o contato com esse espírito que nos envia os sonhos à noite nossa vida murcha.

Nenhuma mudança é fácil, no simbolismo da alquimia, uma das fases da transformação da prima-matéria é o nigredo, a putrefação, onde o velho deve ser dissolvido para que o novo possa surgir. Assim como está nas escrituras. “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará. Com efeito, de que adianta a um homem ganhar o mundo inteiro, se se perde e se destrói a si mesmo?”.

Assim igualmente nas sagradas escrituras “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer produz muito fruto. Quem ama a sua vida, perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo, preservá-la-á para a vida eterna”. O sentido psicológico dessas passagens diz respeito à possibilidade de transformação que aludi aqui. Possível, mas não fácil, mas a via está aberta a todos que desejam com sinceridade trilhá-la.

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