sexta-feira, 4 de março de 2011

A Viagem de Chihiro



Este é um texto que escrevi há alguns anos, justamente na época em que o filme de Miyazaki estava em cartaz nos cinemas, como jamais o publiquei, resolvi fazê-lo no blog. O filme a viagem de Chihiro continua sendo uma obra prima e um dos meus favoritos, então creio que o texto, mesmo sendo já de certa maneira datado, possa despertar algum interesse.

O filme a viagem de Chihiro, em japonês Sen to Chihiro no kamikakushi (千と千尋の神隠し), de Hayao Miyazaki (宮崎 駿), é um dos mais geniais e belos filmes de animação que já passaram em nossos cinemas.

Comecemos por Miyazaki, um ilustre desconhecido entre nós, exceto talvez por alguns “Otakus” (pessoa aficionada por mangás). Miayzaki é autor do excelente Mononoke Hime (princesa Mononoke) em português, além de Porco Rosso, Nasicca e Meu Vizinho Totoro, também excelentes. Em seus filmes, e a viagem de Chihiro não é exceção, está presente uma crítica muito inteligente a nossa sociedade e nosso modo de vida. Em Mononoke Hime, há uma crítica constante a sociedade industrial e a interminável luta da nossa sociedade contra a natureza, um dado que é muito caro à cultura ocidental e cristã. Na nossa cultura deus está separado da criação, além disso, há uma supremacia do homem sobre a criação, é nosso direito subjuga-la, a natureza supostamente existe para nos servir. Sobre este ponto, no livro Capitão Mouro de Georges Bourdoukan, o personagem do título, um mulçumano ironiza essa empáfia dizendo: “...o Altíssimo, em sua infinita bondade, diria que o homem foi criado no sexto dia, por isso não deve ser orgulhoso e enaltecido, pois o mosquito foi criado antes dele”. Esta dicotomia homem versos natureza era profundamente estranha às culturas tradicionais da China e do Japão e isso se reflete até hoje em suas manifestações religiosas. 

Miayzaki possui um estilo delicado, seu traço é delirante, seus filmes, especialmente A viagem de Chirriro, são quase oníricos. Suas histórias podem ser lidas de muitas formas diferentes, mas sua acidez demolidora contra nosso atual modo de vida é uma marca constante.

Mas falando especificamente do filme em questão, muitos dos aspectos dele podem ser confusos se não soubermos decodificar certos símbolos que surgem de forma vertiginosa na tela, ou certas referencias. Por exemplo, em um dado momento do filme, uma das personagens fala da existência de oito milhões de deuses, o que nos remeteria a uma cultura politeísta, ledo engano. O termo original, que foi traduzido de modo capenga como deus é, em japonês Kami, uma palavra que pode ser escrita com três letras chinesas diferentes, podendo significar papel (紙), como em tegami (手紙/carta) ou origami (折り紙/arte de dobrar papel), pode significar cabelo (髪) ou “deus” (神).

 Como já foi dito Deus é uma tradução capenga que nos remete fortemente a noção judaico-cristã de divindade (que seja: deus como criador e o mundo como mecanismo), não é o caso. Kamis não são deuses, mas espíritos, espíritos que habitam todas as coisas, desde um rio até uma cozinha, por exemplo, no ritual matinal do Zen budismo da escola Soto Zen, em um certo momento se reverência o Kami da cozinha. Em nossa cultura existe um contraste muito forte entre o mundo material e o espiritual, na cultura xintoísta japonesa, e na antiga cultura Taoísta Chinesa (varrida pelo vagalhão vermelho que tomou conta da China) esta separação não é tão clara, as coisas são ao mesmo tempo matéria e espírito nas palavras de Lao Tzu, autor do Tao Te King, citado por Alan W. Watts: “ser ou não ser surgem mutuamente. Longo e curto subentendem um ao outro; difícil e fácil se implicam mutuamente”.

Tomemos o exemplo de um rio, ele é a água, a correnteza, os peixes, mas também uma entidade espiritual, existindo um Kami do rio, ou um kami da montanha, e por aí vai. Nessa cultura existem os deuses propriamente ditos, como Amaterazu a deusa do sol, de quem o imperador é descendente, ou na china o Imperador de Jade, senhor das cortes celestiais.

Outra imagem marcante no filme é a presença de dragões. Nos mitos de vários países orientais, especialmente China e Japão, o dragão (em chinês ch’en ou Lung) é considerado o poder espiritual supremo, o mais antigo símbolo da mitologia oriental e também o mais ambíguo. Dragões representam o poder celestial e o poder terreno, sabedoria e força. Eles residem na água e trazem fortuna boa sorte e, segundo a crença chinesa, chuva para as plantações. Na tradução de Richard Wilhelm do livro das mutações temos a seguinte definição para os dragões: “O dragão tem, na China, uma conotação completamente diferente daquela que tem no Ocidente. Simboliza a força propulsora, eletricamente carregada, dinâmica, que se manifesta nas tempestades. No inverno essa força recolhe-se de volta a terra; no começo do verão reativa-se, surgindo no céu como relâmpago e trovão. Como conseqüência às forças criativas da terra despertam”.

 Acredita-se que a presença de representações de dragões na parada do dia de ano novo sirva para repelir espíritos malignos que poderiam estragar o ano novo. Na china o dragão de cinco garras tornou-se o emblema oficial do imperador, o dragão de quatro garras é considerado o dragão chinês comum. O dragão de três garras é reconhecido como o dragão japonês. Na mitologia Hindu, o Deus Hyndra, o Deus do céu, aquele responsável pelas chuvas, teve de caçar Vitra, o dragão das águas, para recuperar a chuva. 

Dentre as inumeráveis descrições dos dragões na china antiga, uma deles referia-se a eles como: “uma criatura longa e escamada, capaz de tornar-se visível ou invisível, pequeno ou largo, curto ou longo. Que sobe ao céu durante o equinócio de primavera, e que submerge em águas profundas durante o equinócio de outono”, Geralmente os dragões chineses são descritos como sendo formados por partes de nove criaturas: a cabeça de um camelo, os olhos de um demônio (ou de um coelho em algumas versões), as orelhas de uma vaca, os chifres de um cervo, pescoço de cobra, barriga de sapo, garras de águia e as solas dos seus pés são de um tigre, e as 117 escamas que cobrem o seu corpo são escamas de carpa.Entre os muitos poderes dos dragões incluem-se: mudar a cor do seu corpo, voar mesmo sem asas e desaparecer diante dos olhos em uma explosão de luz brilhante.

Através da história chinesa os dragões têm sido comparados à água. Dizem que algumas das piores enchentes na china ocorreram quando um mortal aborreceu por algum motivo um dragão. A crença nos dragões influenciou decisivamente a mentalidade do povo chinês, suas pinturas sua poesia e literatura e até mesmo a sua arquitetura, os beirais dos telhados chineses são inclinados para cima para que à noite os dragões possam enroscar suas caudas para dormir (no Brasil podem-se ver algumas casas com essa peculiaridade devido à influência que os portugueses receberam quando invadiram Macau na China).

Na mitologia chinesa existem muitos tipos de dragões: aqueles que protegem os deuses e os imperadores (muitos imperadores chineses alegavam ser descendentes diretos de dragões), aqueles que controlam o vento e a chuva, os guardiões de tesouros escondidos, e muitos outros.

Algo muito peculiar e interessante na mitologia dos dragões diz respeito as suas escamas. Como foi dito acima as escamas do dragão são escamas de carpa, isso ocorre devido à crença de que as carpas ao subirem os rios lutando desesperadamente contra a correnteza, apesar de serem fracas conseguem reunir toda a sua vontade e realizar magníficos saltos, os chineses acreditam que nesse momento elas se transformam em dragões, mas preservavam suas escamas para jamais se esquecerem de suas origens e do lugar de onde vieram.

No filme algumas das mais belas imagens são de Hako, um garoto capaz de se transformar em um dragão. É justamente ele o guia de Chihiro, a protagonista do filme, ele a salva e orienta em vários momentos.

Outro aspecto importante do filme diz respeito aos nomes, Chihiro tem seu nome roubado e se transforma em Sen (千), o motivo é a retirada de várias letras chinesas do seu nome restando somente a letra chinesa que em japonês se pronuncia sen e significa mil, esse encanto permite que ela seja controlada.

Neste momento do filme me recordei das histórias de John Constantine, que Neil Gaimam escrevia para a revista Vertigo, da DC Comics, Constantine, que enfrentava demônios, não se cansava de repetir sobre os seus adversários “o poder está em nomear”.

Na china era comum que as pessoas tivessem vários nomes. No prefácio da tradução dos Analectos de Confúcio em uma nota Simon Leys nos diz: “Quanto aos nomes próprios, tradicionalmente os chineses eram chamados por diferentes nomes: um nome pessoal que apenas podia ser utilizado pelos pais e superiores, nomes de cortesia para uso geral, nomes de fantasia, títulos, etc”.

No Japão era muito comum que as pessoas mudassem de nome no decorrer da vida, além disso, havia um costume bastante peculiar, quando criança se recebia um nome, mas esse não era um nome definitivo, quando alguém se tornava adulto era escolhido um novo nome. Por exemplo, o famoso espadachim Miaymoto Musashi, na infância era chamado de Takezo.

Outro aspecto que pode parecer estranho ao espectador ocidental diz respeito a peculiar casa de banhos onde se passa a maior parte do filme. No Japão tradicionalmente o banho era um ato público. Várias pessoas, homens e mulheres podiam tomar banho juntas, e além do banho quente comum, era e ainda é muito popular o banho em fontes termais naturais e a busca por sofisticadas casas de banhos que oferecem banhos especiais, com infusões de ervas raras e caras, alguns até medicinais.

Muitos outros detalhes podem escapar ao olhar mais desatento, por exemplo, em determinado momento do filme, a protagonista toma um trem, neste trem há uma placa com dois caracteres chineses, um que significa meio e outro caminho, ou seja, caminho do meio, que é uma das designações do caminho do Buda ou Budadharma.

Deixando um pouco de lado as referências culturais, e partindo para aquilo de universal que o filme possui, poderíamos falar das inúmeras alusões míticas contidas no filme. O filme narra uma jornada, ele se inicia com a partida de Chihiro e seus pais de seu antigo lar, na verdade esta parte está subentendida, pois o filme começa com a chegada deles a sua nova cidade, neste momento Chihiro ainda está apegada a sua antiga vida e não aceita muito bem à mudança, ela vai a viagem inteira agarrada a um buquê de despedida que contêm um cartão de despedida que será crucial mais adiante. No momento em que eles entram na cidade a protagonista se dá conta de que as flores estão mortas, e junto com elas sua antiga vida.

As mudanças são uma parte importantíssima na cultura oriental, não se deve ter apego excessivo a nada, pois intrinsecamente nada existe, tudo está em perpetua mutação. Um dos livros mais importantes para china, e todos os outros países que beberam da fonte da sabedoria do reino do meio, é o I Ching, o clássico das mutações. Estes conceitos se encontram fortemente representados no filme. Nesse sentido o título em português, “A viagem de Chihiro” é bem adequado.

O filme nos remete aquilo que Joseph Campbell denominou “a jornada do herói”, que pode ser entendido como um aforismo para a nossa própria jornada interior de crescimento. No filme somos representados pela jovem Chihiro, uma garotinha quase indefesa que se vê separada dos pais e ainda com a pesada responsabilidade de salvá-los, para isso ela precisa crescer, enfrentar sozinha os obstáculos, separar-se de sua infância e de suas projeções infantis e tornar-se uma pessoa adulta, no sentido pleno da palavra. O oposto de Chihiro é um imenso bebê, que vive enclausurado e protegido por sua mãe, a vilã do filme uma bruxa, essa criança gigante é mimada e superprotegida, a ela não foi dada à chance de crescer, esse bebezão representa a grande maioria de nós, que virou as costas a grande aventura de crescer, de tornar-se uma pessoa plena, de romper os horizontes mesquinhos que nós cercam e que comodamente aceitamos. Mas no filme, mesmo este bebezão é forçado a aceitar novos horizontes, a se deparar sozinho com a crueldade do mundo que nos cerca.

Apesar da ênfase nas mudanças, como foi exposto, o passado não é desprezado simplesmente, ele tem seu lugar, de certa forma ele nos define, como na doutrina Budista do Karma, de certa forma o passado de Chihiro é que a salva da maldição da perda do nome, e são as ações passadas de Hako a chave da sua redenção, quando Chihiro aceita sua condição presente, seu passado pode se manifestar de forma benéfica, e não mais como uma amarra que a impedia de desfrutar plenamente o momento presente, que em última instância é tudo o que temos, como reza a máxima budista: “o passado não existe e o futuro é uma ilusão”.

Há ainda muito a ser dito, mas creio que o melhor é deixar esta lacuna, como os antigos construtores egípcios que ao escavar uma tumba deixavam sempre uma parte da construção terminando na rocha nua, intocada. Este filme é uma grande oportunidade de crescimento, de pararmos de olhar para o nosso próprio umbigo e olharmos com reverência para uma cultura tão antiga quanto à do oriente, gostaria de terminar este artigo com uma frase de Confúcio, que acredito que representa um pouco o espírito desse filme e da obra de Miayzaki: “Quando a natureza prevalece sobre a cultura, obténs um selvagem; quando a cultura prevalece sobre a natureza, obténs um pedante. Quando natureza e cultura estão em equilíbrio, obténs um cavalheiro”.

6 comentários:

  1. Só tenho uma coisa a dizer e eu sou muito crítica; como escreve bem.
    R.

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    1. Obrigado, esse é um texto antigo, mas ainda gosto bastante dele.

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  2. Muito boa sua análise. Eu estava atrás de textos que falassem sobre o filme pois realmente percebi muitas metáforas, muitas pontas soltas que na verdade carregam mensagens de grande profundidade, mas é claro que nem tudo é percebido pelo nosso olhar. É por isso que este filme deve ser visto muito mais que duas vezes e nunca falta vontade, pelo menos de minha parte.
    É um filme que também deve ser mais discutido. Admiro-me muito de só encontrar menos de meia dúzia de textos sobre este filme. Aparentemente pouca gente conversou sobre ele e é uma conversa que eu quero participar.
    Há tantos pontos filosóficos, detalhes importantes que demonstram realmente ser esta uma obra de arte, já que a arte se eleva além da razão e da emoção trazendo na verdade o fruto da união destes dois caminhos, a intuição.
    Brilhante!

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    1. Obrigado André, no meu canal do youtube há uma palestra que proferi sobre o filme, talvez você goste:
      https://www.youtube.com/watch?v=_oQxzCvOrkg

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  3. Ótima exposição do filme! Concordo com André, é um filme que merecia ser melhor debatido, pois tem muita coisa "escondida" nas metáforas que foram construídas ao longo da trama. Sem sombra de dúvidas é uma obra prima!

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    1. sim, com certeza, no blog há outro texto que escrevi a respeito além da minha palestra no meu canal do youtube:

      https://www.youtube.com/watch?v=_oQxzCvOrkg

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